O juiz distrital dos EUA David Carter rejeitou na quarta-feira o pedido do Departamento de Justiça de uma ordem emergencial que teria obrigado a Califórnia a separar cédulas de voto pelo correio de cerca de 20.000 eleitores descritos pelo órgão como prováveis não cidadãos.1,4,6,7
A decisão de 26 páginas deixa as autoridades eleitorais da Califórnia livres para continuar a processar e contar as cédulas enviadas pelo correio a menos de uma semana das eleições de meio de mandato de 3 de novembro, nas quais os eleitores decidirão qual partido controlará a Câmara dos Representantes (House) e o Senado (Senate). O departamento afirmou que separar as cédulas era necessário para evitar a diluição de votos legítimos.4,7
Carter afirmou que o pedido contrariava a divisão de competências sobre as eleições. "Nunca antes na história americana o governo federal, na véspera de uma eleição, tentou coagir um governo estadual e governos locais a abandonar seus próprios procedimentos eleitorais constitucionais e a se curvar à vontade do Poder Executivo", escreveu Carter. Ele acrescentou: "Ao propor esta ação, o Executivo pretende fazer este Tribunal acreditar que reina como soberano único. Mas a Califórnia e seu povo também são soberanos."1,4,6,7
Carter, indicado pelo ex-presidente Bill Clinton, disse que conceder a ordem permitiria a qualquer um dos partidos criar perturbações em torno da votação. "Mais de 20.000 californianos registrados poderiam perder o direito que gerações de americanos lutaram para preservar", escreveu. Ele afirmou que a ordem iria "causar caos e perturbar a eleição já em curso, criar um efeito inibidor tanto sobre mesários quanto sobre eleitores e desconsiderar os votos de cidadãos dos Estados Unidos."1,4,7
O juiz disse que o método do departamento para identificar os eleitores levantava dúvidas sobre a precisão. Ele classificou a metodologia como vaga e disse que não podia concluir que o processo fosse confiável, escrevendo que o protocolo para verificar a cidadania "levanta preocupações significativas". Autoridades de Los Angeles afirmaram em documentos judiciais que uma análise preliminar de 200 nomes encontrou uma "alta porcentagem" de pessoas que disseram ter nascido nos Estados Unidos e muitas outras sem histórico de votação, e outras análises de condados encontraram eleitores sinalizados que não constavam dos registros e informações insuficientes para verificar a cidadania, segundo o CalMatters. Carter escreveu: "Uma cédula segregada, na prática, seria uma cédula eliminada."1,4,6
O departamento argumentou que a Califórnia estava potencialmente misturando cédulas legítimas com cédulas de supostos não cidadãos e frustrando esforços do Congresso para proteger a integridade eleitoral. "A cada dia, mais cédulas são processadas pelas autoridades eleitorais. Esta emergência contínua priva cidadãos americanos de seus direitos por meio da diluição", disse Bill Essayli, o principal procurador federal em Los Angeles, em comunicado. "Há interesse público em que a população americana tenha confiança nas eleições", afirmou Essayli, acrescentando que o governo não pedia a anulação ou o cancelamento de nenhuma cédula, mas a retenção separada das cédulas contestadas até que a cidadania pudesse ser confirmada.4
As autoridades da Califórnia se opuseram ao pedido e descreveram o processo como uma "manobra política imprudente" destinada a levantar dúvidas sobre os resultados. Elas disseram que a ação contrariava o princípio de que os estados administram suas próprias eleições e poderia gerar desordem na apuração final nas próximas semanas. As autoridades estaduais disseram que não poderiam verificar a cidadania das pessoas da lista antes do dia da eleição, e Carter concordou que a apuração não deveria ser interrompida com base em alegações oriundas do que ele descreveu como um procedimento marcado por incertezas e erros.1,4,6
Em audiência na véspera da decisão, Carter questionou por que o governo não poderia abrir processos criminais após a eleição em vez de separar cédulas agora. "Sempre houve um incentivo ao direito de voto das pessoas, nós, o povo, porque quando exercemos nosso direito de voto, exercemos a igualdade", disse Carter. Ele observou que os investigadores poderiam usar as informações de identificação nos envelopes das cédulas devolvidas para abrir processos depois, dizendo aos advogados do departamento: "O remédio, como um bom promotor, é garantir que essas pessoas sejam processadas." Ele descreveu a separação solicitada como uma "mudança monumental" nos procedimentos com a votação já em andamento.4
O processo foi aberto em 15 de outubro contra a Califórnia, a secretária de Estado Shirley Weber e o registrador-escrivão do condado de Los Angeles Dean Logan, depois que o departamento entregou um pendrive a autoridades em Los Angeles e Sacramento com o que disse serem 20.000 não cidadãos nos registros. O departamento deu 48 horas às autoridades para analisar a lista e pediu que as cédulas desses eleitores não fossem apuradas até que a cidadania fosse confirmada. A Califórnia tem mais de 23 milhões de eleitores registrados, e as leis federais e da Califórnia proíbem o voto de não cidadãos.4,6,7
O departamento havia primeiro pedido ao Tribunal de Apelações dos EUA para o 9.º Circuito (U.S. Court of Appeals for the 9th Circuit), na sexta-feira, que ordenasse a separação das cédulas, alegando que Carter não estava agindo com rapidez suficiente após marcar uma audiência para 27 de outubro. Um painel de três juízes votou por 2 a 1 na segunda-feira para rejeitar esse recurso, concluindo que o departamento não havia dado ao juiz distrital "oportunidade adequada" para decidir o pedido emergencial. Carter também disse que pretende nomear um perito especial para examinar como o departamento elaborou a lista de 20.000 nomes.1,4,6
O caso da Califórnia faz parte de um esforço federal mais amplo para obter registros de eleitores e identificar suposto voto de não cidadãos antes da eleição de terça-feira. O governo emitiu mais de 100 intimações solicitando registros de dezenas de milhares de eleitores em pelo menos 13 estados, tanto de tendência republicana quanto democrata, a maioria nos últimos três meses, segundo a Reuters. Especialistas jurídicos disseram que os registros poderiam ser usados para contestar resultados apertados nas eleições de meio de mandato, apesar das escassas evidências de que o voto de não cidadãos seja generalizado. Em julho, o Departamento de Segurança Interna (Department of Homeland Security) disse ter identificado até 190.000 não cidadãos nos registros da Califórnia, mas não forneceu detalhes ao estado até depois que as cédulas já haviam sido enviadas.6,7
O departamento planeja recorrer da decisão de Carter e pedir uma ordem emergencial ao 9.º Circuito. "Direitos constitucionais e nossa democracia estão em jogo. O interesse público favorece sua proteção", escreveu Carter. "Indivíduos que cumpriram os requisitos das leis de registro eleitoral da Califórnia não devem ser privados de um direito essencial apenas por causa de alegações infundadas decorrentes de um procedimento repleto de incertezas e erros."4