Em Belgrado (Beograd), na noite de domingo, o líder de longa data da Sérvia, Aleksandar Vučić, reconheceu a derrota para um movimento de protesto liderado por estudantes nas eleições parlamentares antecipadas, afirmando que os resultados iniciais deixavam claro que seu partido havia perdido.1,2,4,6
Vučić havia convocado a votação antecipada após dois anos de protestos que começaram com o desabamento de uma cobertura de estação ferroviária na cidade de Novi Sad, que matou 16 pessoas. Ele cumprira dois mandatos como presidente e não podia concorrer a um terceiro, por isso liderou o Partido Progressista Sérvio (Srpska napredna stranka, SNS) com o objetivo de voltar ao cargo de primeiro-ministro que deixou em 2017. Ele havia renunciado à presidência no mês anterior para liderar a campanha. A votação foi vista como um confronto entre ele e um movimento de estudantes universitários que liderava protestos contra ele havia quase dois anos.1,4
Ao discursar na sede do SNS em Belgrado, Vučić disse: "Ainda não temos resultados finais... está claro que perdemos estas eleições." A DW transmitiu suas palavras de forma um pouco diferente, citando-o: "Com base em uma amostra estratificada, está claro que perdemos estas eleições."1,6
No mesmo discurso, Vučić afirmou que as projeções davam à Lista dos Estudantes (Studentska lista), apoiada por jovens, entre 135 e 140 das 250 cadeiras do parlamento, enquanto o SNS era projetado para cerca de 105. Ele culpou a imprensa independente da Sérvia pela derrota e alegou interferência de países europeus não identificados e do "Estado profundo americano". O resultado oficial ainda não havia sido divulgado no momento das reportagens.6
Dados preliminares da comissão eleitoral da Sérvia mostraram comparecimento recorde, com 64,9% dos eleitores tendo votado até as 18h, horário local, duas horas antes do fechamento das urnas. Comentaristas haviam sugerido que um comparecimento alto favoreceria o movimento estudantil. Mais cedo, longas filas se formaram em frente às seções eleitorais em toda a Sérvia, e filas semelhantes foram vistas em locais de votação em países com grandes comunidades sérvias, incluindo a capital da Eslovênia (Slovenija), Liubliana (Ljubljana), Munique (München), na Alemanha, e Los Angeles e Chicago, nos Estados Unidos. Em Paris, eleitores esperaram sob forte chuva.1
A Lista dos Estudantes não tem líderes óbvios, e seus membros não estão acostumados à política. Ela apresentou candidatos de diversos setores da sociedade sérvia, incluindo médicos, atores, acadêmicos e personalidades do esporte. A France 24 descreveu seus candidatos como especialistas pouco conhecidos, atletas, agricultores e artistas, e disse que nenhum dos estudantes que moldaram o movimento estava na lista. O candidato principal da Lista dos Estudantes, Ilija Srdanović, disse à BBC Serbian: "Este será um Estado livre." Ele afirmou que o movimento espera "libertar o país da tirania".1,4
O movimento fez campanha com um programa que incluía expurgar funcionários que descumpriram regras no trato com os manifestantes, impedir que leais ao partido comandem empresas públicas e libertar a emissora pública do controle político. Vučić, que apoia a candidatura da Sérvia à União Europeia, mas se recusa a impor sanções à Rússia pela invasão em larga escala da Ucrânia, prometeu aumentar pensões e salários do setor público e investir na saúde estatal. Vučić e o SNS negaram repetidamente a existência de corrupção.1
Os protestos foram desencadeados pelo desabamento da cobertura da estação de Novi Sad, que a France 24 descreveu como de concreto. Os manifestantes afirmam que a corrupção generalizada levou à negligência durante as obras de reforma da estação e, por fim, ao desabamento. A indignação refletia acusações amplamente difundidas de corrupção e favorecimento em altos escalões, e os protestos exigiam responsabilização pelo desastre e justiça para as vítimas.4
Observadores eleitorais internacionais e locais já haviam manifestado preocupação com a segurança e a justiça de uma campanha marcada por detenções, controle quase total do governo sobre a mídia e relatos de vigilância e ataques cibernéticos contra ativistas. Eleições locais realizadas no início deste ano em 10 municípios registraram ataques violentos contra jornalistas e ativistas. A eleição parlamentar anterior, em 2023, foi seguida por protestos da oposição que alegavam fraude. A União Europeia acompanhava de perto a condução da votação.4
A votação ocorreu em meio a grande tensão em toda a Sérvia, e a polícia isolou as ruas em volta da Comissão Eleitoral da República (Republička izborna komisija), em Belgrado. Após o reconhecimento da derrota por Vučić, multidões comemoraram na capital, onde as pessoas dançavam, gritavam "vitória", buzinavam e soltavam fogos de artifício. "A Sérvia está livre", disse um estudante à BBC. "É um milagre." Em Novi Sad, o centro da cidade ficou lotado, e David Vasić, um dos que comemoravam, disse à BBC Serbian: "Tudo vai melhorar agora."1
Vučić havia dito que seu grupo aceitaria a derrota caso perdesse a votação, mas também alertou que quaisquer protestos para alegar fraude em caso de vitória de seu partido seriam imediatamente reprimidos. Magda Anastasijevic, analista da Europa Oriental do monitor de conflitos ACLED, afirmou que a violência eleitoral vinha aumentando recentemente na Sérvia e poderia escalar, "especialmente se os resultados forem contestados".4
As pesquisas eleitorais feitas antes da votação apresentaram resultados variados, e os dois lados afirmavam estar à frente. A comissão eleitoral estatal não deve divulgar o resultado oficial antes de segunda-feira.4