Israel anunciou neste domingo que fechará todas as passagens terrestres com a Cisjordânia ocupada na terça-feira, 27 de outubro, dia de suas eleições gerais, enquanto o Exército amplia a repressão no território após atiradores palestinos matarem dois soldados israelenses.1,4,7
O Exército israelense afirmou em comunicado divulgado no início do domingo que proibirá a entrada de trabalhadores palestinos na maior parte das áreas da Cisjordânia de domingo a segunda-feira, e que o fechamento total das passagens de entrada e saída do território será aplicado na terça-feira. O Exército descreveu “uma proibição de entrada e saída de trabalhadores palestinos em toda a Judeia e Samaria (Judea and Samaria) e no Vale do Jordão (Jordan Valley), incluindo zonas industriais, bem como o fechamento de todas as passagens terrestres durante todo o Dia da Eleição”, e disse que a maioria dos trabalhadores também será impedida de entrar em assentamentos a partir de domingo, com exceções para zonas industriais e um número limitado de outras áreas. Antes do ataque de 7 de outubro de 2023 liderado pelo Hamas contra Israel, mais de 100.000 trabalhadores palestinos tinham permissão para entrar em Israel, e apenas uma pequena fração teve suas autorizações restabelecidas desde então.1,4,7
As medidas seguem o ataque de sexta-feira, em que dois atiradores palestinos abriram fogo, matando dois soldados israelenses e ferindo outros três. Os dois atiradores também morreram. Os relatos divergem quanto ao local: a Al Jazeera descreveu um ataque a uma base de reserva do Exército israelense, enquanto a NPR, a France 24 e a BBC descreveram um posto de controle. O Exército israelense disse à NPR que os soldados estavam posicionados atrás de barreiras de concreto quando os atiradores abriram fogo, e que um tiroteio durou cerca de 20 minutos até que os soldados matassem os agressores. A France 24 informou que o Hamas, embora não tenha reivindicado a autoria, saudou as mortes.1,4,6,7
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ordenou um “bloqueio total” da Cisjordânia ocupada após o ataque e prometeu cobrar um preço alto, segundo a Al Jazeera e a France 24. Ele disse estar planejando uma operação em escala não vista desde que Israel ocupou pela primeira vez a Cisjordânia, em 1967. Em um discurso televisionado no local do ataque, próximo a Hebron, afirmou: “Vamos agir para demolir este lugar, para mudá-lo completamente.” O Exército israelense disse que a operação durará vários dias.1,4,6
Em Hebron, o Exército israelense vem demolindo casas e removendo à força centenas de palestinos de um bairro após o ataque. O ministro da Defesa, Israel Katz, afirmou que cerca de 2.000 pessoas foram deslocadas. Em entrevista à emissora pública Kan, disse: “Eles não terão permissão para voltar ao seu bairro até que tenhamos terminado de lidar com todas as questões do Hamas em Hebron.” Moradores disseram que soldados anunciaram ordens de evacuação forçada por alto-falantes tarde da noite, deixando-os sem tempo para se preparar e com poucos lugares para ir. A cifra da Al Jazeera foi maior: o prefeito de Hebron, Yousef al-Ja’bari, havia dito no sábado que 2.200 pessoas tinham sido forçadas a deixar suas casas.1,4,6,7
O prefeito disse à Al Jazeera que a cidade de Hebron e várias aldeias vizinhas estão sob bloqueio completo. Cerca de 200.000 palestinos vivem na cidade de Hebron, e outros 600.000 vivem na província de Hebron, tornando-a a área mais populosa da Cisjordânia. Imagens compartilhadas na internet mostraram pelo menos uma rua inteira que aparentava ter sido arrasada, segundo a BBC. Israel já havia imposto fechamentos generalizados em Hebron no sábado.1,6,7
O Exército israelense afirmou que, na sexta-feira e no sábado, atuou em 40 áreas do território. As forças israelenses disseram ter “detido aproximadamente 40 suspeitos, incluindo terroristas ligados às organizações terroristas Hamas e Jihad Islâmica (Islamic Jihad).” Centenas de incursões foram realizadas desde o ataque de sexta-feira.1,4
A Autoridade Palestina (Palestinian Authority), que governa partes da Cisjordânia em cooperação com Israel, pediu pressão internacional sobre Israel para proteger os moradores de Hebron. Ela chamou as ações de Israel de “punição coletiva”, citando a demolição de casas, o deslocamento forçado de bairros inteiros e o “fechamento e cerco de cidades palestinas”. Grupos israelenses de direitos humanos criticaram a demolição de casas desse tipo como punição coletiva. A organização israelense de direitos humanos B’Tselem pediu que governos estrangeiros atuem para impedir “outra onda de limpeza étnica e crimes de guerra”.1,4,6,7
Netanyahu comparou a operação planejada a um ataque militar israelense no ano passado contra dois campos de refugiados palestinos de longa data no norte da Cisjordânia, no qual o Exército deslocou dezenas de milhares de palestinos. A Human Rights Watch afirmou que essas expulsões equivaleram a crimes de guerra, acusação que Israel rejeita. O Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas para o território palestino ocupado descreveu a onda de violência e de confiscos de terras por colonos israelenses contra palestinos como um “novo nível de desumanização dos palestinos”.6
Netanyahu, o premiê mais longevo de Israel, enfrenta uma disputa acirrada por um novo mandato na votação de terça-feira. Segundo pesquisas citadas pela NPR, ele e seu principal adversário, Gadi Eisenkot, estão empatados, e nenhum dos dois tem atualmente apoio suficiente para formar um governo. Analistas citados pela Al Jazeera dizem que ele tenta capitalizar conflitos militares regionais em curso e temores de segurança nacional. O prefeito de Hebron afirmou que a operação está “sendo conduzida pelas eleições”, e que Netanyahu e seus ministros tentam garantir os votos da extrema direita e dos colonos.1,6,7
Danny Citrinowicz, pesquisador sênior do Instituto de Estudos de Segurança Nacional (Institute for National Security Studies), em Tel Aviv, disse à NPR: “Para Netanyahu, seu trunfo antes da eleição é: ‘Eu sou o Sr. Segurança.’” Ele descreveu a resposta de despejar famílias do bairro de onde vieram os atacantes, sem provas de ligação com os atiradores, como “punição coletiva”. Acrescentou: “A forma de evitar mais ataques de palestinos não é a punição coletiva. É dando esperança.”6
No sábado, milhares de pessoas se reuniram em Tel Aviv em uma manifestação antigoverno organizada pelo Conselho de Outubro (October Council), grupo fundado por famílias de vítimas e de reféns feitos por militantes em 7 de outubro de 2023. Os líderes dos quatro principais partidos de oposição compareceram, incluindo Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior do Exército. Em entrevista ao canal de televisão israelense i24, Netanyahu ameaçou uma “surpresa muito grande” para a Autoridade Palestina. O Exército israelense disse que a operação em Hebron durará vários dias, e os relatos não informam por quanto tempo as restrições permanecerão em vigor após a votação de terça-feira.1,7