Três petroleiros foram interceptados na sexta-feira no Estreito de Ormuz após o que o Irã descreveu como ataques com minas, no mais recente confronto pela via navegável, uma das principais fontes mundiais de petróleo.2,3,4
O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (Islamic Revolutionary Guard Corps) disse que as embarcações tentavam usar rotas não autorizadas pelo estreito, enquanto Omã (Oman) afirmou ter resgatado 25 tripulantes de um petroleiro em chamas na mesma área.3,4
Até 27 de outubro, pelo menos 30 embarcações, na maioria petroleiros, haviam sido atingidas em outubro, deixando ao menos 16 marítimos feridos, segundo dados da Organização Marítima Internacional (International Maritime Organization), agência das Nações Unidas (United Nations). Os ataques a navios dobraram em outubro em comparação com 15 incidentes confirmados em setembro. Mais navios comerciais foram atacados em outubro do que em qualquer outro momento da guerra. "É uma situação difícil. Os navios são atacados praticamente todos os dias", disse Jakob Larsen, diretor de segurança da BIMCO, associação comercial da navegação sediada na Dinamarca (Denmark).1
Os preços do petróleo subiram mais de 13% neste mês com a piora da segurança. O contrato internacional Brent foi negociado acima de US$ 117 por barril na sexta-feira, pouco abaixo do recorde de fechamento em tempo de guerra, de US$ 118,35, durante a onda de ataques a navios do Irã em março, enquanto os preços do petróleo de modo geral dispararam na sexta-feira aos níveis mais altos desde o fim de abril. Ainda assim, as exportações médias de petróleo por Ormuz ficaram em quase 11,1 milhões de barris por dia em outubro, apenas cerca de 2% abaixo de setembro apesar da escalada, segundo dados da Kpler. "No balanço geral do petróleo que está saindo, não houve um impacto enorme", disse Mary Melton, analista sênior de petroleiros da Braemar, corretora de navios sediada em Londres (London).1,4
Os fluxos são altamente voláteis no dia a dia, com exportações próximas aos níveis pré-guerra em um dia e bem abaixo desses níveis em outro. Na semana encerrada na quarta-feira, os fluxos caíram para 7,3 milhões de barris por dia, mais de 40% abaixo da base pré-guerra, segundo a Kpler. Os armadores se adaptaram com um sistema de transporte por lançadeira em que petroleiros carregam petróleo em portos do Golfo Pérsico (Persian Gulf), atravessam Ormuz com os transpondedores desligados e transferem a carga para petroleiros à espera no Golfo de Omã (Gulf of Oman), que então a entregam a refinarias na Ásia (Asia), o que, segundo Melton, reduz os custos de seguro para navios fora do estreito. O sistema ajudou os fluxos a subir mais de 70% desde julho, segundo a Kpler, mas exige mais equipamentos, navios e tripulações experientes, com cerca de 20% da frota mundial de superpetroleiros mobilizada no esforço, disse Melton.1
Contratar um superpetroleiro para a viagem do Golfo de Omã à Ásia custava US$ 249 mil por dia no início de setembro e passou a mais de US$ 900 mil por dia na primeira semana de outubro, o que equivale a cerca de US$ 21 em custos de transporte por barril, ante US$ 6,50 por barril em setembro, disse Melton. "Se você é um importador na Ásia, está acostumado a pagar quase nada pelo frete", disse Melton. "Isso começa a afetar de verdade as margens como refinador", afirmou. Mais produtores do Golfo passaram a arcar com o custo e o risco do transporte por Ormuz para tentar recuperar participação de mercado na Ásia dos Estados Unidos (United States) e de outros produtores do Atlântico, usando cada vez mais seus próprios petroleiros na travessia, disse ela.1
Larsen disse que a disposição do setor em continuar transitando depende de proteção militar, pois os fretes dispararam e os preços mais altos do petróleo aumentaram o incentivo comercial para movimentar cargas. As tarifas em alta tornaram "mais atraente para quem assume riscos no setor realizar essas viagens", afirmou. "E quando o custo do petróleo sobe, isso também significa que há mais incentivos comerciais para tirar o petróleo e vendê-lo no mercado global", disse Larsen. "Acho que não haveria muitos armadores dispostos a correr o risco se não tivessem essa cobertura aérea de caças, helicópteros e drones americanos", afirmou.1
Não se sabe por quanto tempo esse arranjo pode continuar. Também é incerto por quanto tempo os militares americanos continuarão envolvidos, sobretudo se os democratas retomarem o controle do Congresso (Congress) após as eleições de terça-feira e exigirem que o presidente encerre a guerra. O Wall Street Journal informou, citando pessoas informadas sobre as conversas, que os Estados Unidos disseram a várias nações árabes do Golfo que se preparem para uma campanha militar curta, mas intensa, após as eleições de meio de mandato de 3 de novembro. A Marinha americana, que impõe um bloqueio contra o Irã, alertou os navios que não precisam transitar pelo Golfo Pérsico, Ormuz e Golfo de Omã a se manterem longe da região. "Diante da atual situação geopolítica, recomenda-se que as embarcações que não precisam transitar pela área se mantenham bem afastadas para evitar atrasos desnecessários em suas viagens", disseram os militares americanos às embarcações na quarta-feira, em aviso emitido pelo Centro Conjunto de Informações Marítimas (Joint Maritime Information Center).1
A Guarda disse que dois petroleiros foram interceptados nas partes leste e oeste do estreito e que um terceiro, um superpetroleiro com mais de dois milhões de barris de petróleo, pegou fogo. "Dois petroleiros infratores, um na parte leste e outro na parte oeste do Estreito de Ormuz, que tentavam passar pela rota não autorizada, sofreram incidentes e foram imobilizados nas águas ao sul do estreito", disse a Guarda em comunicado. Disse ainda, separadamente, que o superpetroleiro "explodiu e pegou fogo hoje por tentar passar por uma rota não autorizada". O Irã afirmou que as outras duas embarcações haviam desligado os sinais de navegação e ignorado repetidos avisos por rádio.3,4
Essas alegações não puderam ser verificadas. O Irã não identificou os navios, não disse de onde eram, não deu detalhes sobre o destino das tripulações nem disse quem havia lançado as minas. Os militares americanos negam as alegações sobre minas navais, e o chefe do Comando Central dos Estados Unidos (United States Central Command), Brad Cooper, disse na sexta-feira que as "rotas principais de trânsito internacionalmente reconhecidas" do estreito haviam sido liberadas das minas marítimas iranianas. Separadamente, o Centro de Segurança Marítima de Omã (Omani Maritime Security Centre) disse na sexta-feira que havia evacuado pessoas a bordo do navio mercante RITI, que, segundo Omã, navegava com bandeira do Panamá (Panama), enquanto o site de rastreamento MarineTraffic o identificou como petroleiro. Não está claro se uma das embarcações descritas pelo Irã era o petroleiro cuja tripulação foi evacuada por Omã.3,4
Outros incidentes foram relatados na sexta-feira na região. A leste do Estreito de Ormuz, a Marinha iraniana disse ter atingido e destruído uma embarcação inimiga não tripulada. A Arábia Saudita (Saudi Arabia) disse ter derrubado um drone perto de Meca (Mecca) lançado pelos rebeldes hutis do Iêmen (Yemen), apoiados pelo Irã (Houthis), versão negada pelos hutis. O Irã advertiu repetidamente as embarcações contra atravessar o estreito sem permissão de Teerã (Tehran), disse no mês passado que embarcações que tentassem fazê-lo enfrentariam "destruição" e afirma controlar grande parte da via desde que os Estados Unidos e Israel lançaram a guerra em 28 de fevereiro.3,4
A campanha do Irã foi inicialmente bem-sucedida, com as exportações de petróleo despencando quase 90%, para 1,8 milhão de barris por dia em março, ante 16 milhões de barris por dia em fevereiro, segundo a Kpler. Os fluxos então se recuperaram ao longo de oito meses com a proteção militar americana a petroleiros em trânsito por Ormuz, antes de Teerã intensificar os ataques nas últimas semanas. Os preços do petróleo podem ficar ainda mais voláteis nas próximas semanas com as recentes eleições em Israel e as eleições de meio de mandato americanas de 3 de novembro, com o petróleo devendo ser negociado em uma faixa mais alta, de US$ 70 a US$ 90 por barril, mesmo após o fim do conflito, ante uma faixa pré-guerra de US$ 60 a US$ 70, segundo informe do Saxo Bank em Singapura (Singapore). "A contínua ação armada em torno do Estreito de Ormuz, em meio a dúvidas sobre uma saída diplomática viável, mantém os preços do petróleo elevados na expectativa de uma escalada do conflito nas próximas semanas", disse Saul Kavonic, chefe de pesquisa de energia da MST Marquee.1,4