Joshua Wong, um dia o rosto do movimento pró-democracia de Hong Kong, foi condenado em Hong Kong na quinta-feira a 10 anos de prisão por conluio com forças estrangeiras, ao abrigo da lei de segurança nacional da cidade.1,4
A sentença prolonga o seu tempo atrás das grades em quase uma década, precisamente quando se esperava que fosse libertado em janeiro após cumprir uma pena separada por subversão. Wong declarou-se culpado em setembro da acusação de conluio, que o acusava de ter procurado sanções estrangeiras contra Hong Kong e a China, e é a única pessoa entre as dezenas de condenados no maior julgamento de segurança nacional da cidade, em 2024, a ser acusada duas vezes ao abrigo da mesma lei.1,4
Wong, que completou 30 anos no mês passado, entrou no tribunal com uma camisa azul e óculos pretos, acenando para os apoiantes e observando jornalistas e membros do público. A BBC descreveu-o com uma camisa de manga comprida azul-escura, calças caqui e óculos de armação preta, e mais magro do que em aparições anteriores. Ele acenou para a galeria lotada, tomou notas enquanto o juiz apresentava os fundamentos da sentença e depois agradeceu e acenou aos apoiantes ao sair. Um resumo à imprensa divulgado pelo tribunal afirmou: "O tribunal... impôs uma sentença final de 10 anos de prisão."1,4
O juiz disse que dois meses e dois dias da pena de 10 anos seriam cumpridos em simultâneo com a pena que Wong já cumpre. A France 24 disse que se esperava que Wong fosse libertado em janeiro após cumprir quatro anos e oito meses por subversão. Quanto ao tempo já passado sob custódia, os relatos diferiram ligeiramente: a BBC disse que Wong passou os últimos seis anos na prisão, enquanto a France 24 disse que ele passou quase seis anos atrás das grades.1,4
Os procuradores disseram que Wong conspirou com outros ativistas, incluindo o ativista autoexilado Nathan Law, para fazer lobby por sanções e bloqueios estrangeiros contra Pequim (Beijing) entre julho e o final de novembro de 2020. Wong e Law foram cofundadores do Demosisto, um partido político pró-democracia entretanto dissolvido. As autoridades de Hong Kong acusaram Wong novamente em junho de 2025 ao abrigo da mesma lei de segurança nacional imposta em 2020 após protestos pró-democracia contra o crescente controlo de Pequim.1,4
As autoridades disseram que o lobby internacional de Wong começou já em 2016, quando ele promoveu um projeto de lei, a Lei de Direitos Humanos e Democracia de Hong Kong (Hong Kong Human Rights and Democracy Act), que permitiria ao presidente dos Estados Unidos (United States) impor sanções em resposta a violações de direitos humanos na cidade. Em 2019, quando Hong Kong assistiu a protestos pró-democracia massivos e por vezes violentos, Wong integrou uma delegação aos Estados Unidos para defender o projeto, que acabaria por ser aprovado. Na altura, Wong prometeu "continuar a defender a minha casa -- Hong Kong -- até me silenciarem".4
Wong ganhou destaque durante os protestos de 2014 em Hong Kong conhecidos como Movimento Umbrella (Umbrella Movement) e tem entrado e saído da prisão desde 2017 devido a processos relacionados com protestos. O seu ativismo começou quando era adolescente. Ele esteve entre as dezenas de figuras pró-democracia presas por subversão em 2024. Alguns dos seus coarguidos foram libertados nos últimos meses após cumprirem as suas penas. A pena mais dura ao abrigo da lei de segurança nacional até agora foi aplicada ao ex-magnata da comunicação social Jimmy Lai, condenado a 20 anos de prisão, também por conluio com forças estrangeiras. Centenas de ativistas e cidadãos comuns de Hong Kong foram detidos ao abrigo da lei.1,4
Os críticos dizem que a lei silenciou a dissidência, enquanto as autoridades afirmam que ela é necessária para manter a estabilidade e negam que tenha enfraquecido a autonomia da cidade. O advogado de Wong defendeu uma pena mais curta, de três a 10 anos, citando o tempo já cumprido. Dezenas de pessoas esperaram em fila para a audiência, enquanto a polícia mobilizou um forte efetivo em frente ao tribunal.1,4
Frances Hui, amiga de Wong e também ativista, atualmente radicada nos Estados Unidos, disse estar desolada e indignada com o veredicto. "A sentença de hoje não é apenas sobre o Joshua. Faz parte de uma repressão política mais ampla que procura reescrever um capítulo da história de Hong Kong e apagar as contribuições de toda uma geração que acreditava poder moldar o futuro da sua cidade", disse ela à BBC.1
A Human Rights Watch descreveu a decisão como "cruel e injusta". "Para manter a sociedade de Hong Kong submissa e reduzir a probabilidade de protestos internacionais, o governo de Hong Kong parece ter adotado a tática de acumular acusações contra líderes pró-democracia influentes", disse a sua diretora para a Ásia, Elaine Pearson. Grupos de direitos humanos denunciaram a acusação de conluio contra Wong como uma tentativa deliberada das autoridades de o manter encarcerado.1,4
Louis Lee, amigo que foi membro do grupo estudantil Scholarism, entretanto dissolvido e cofundado por Wong, disse que Wong permanecia "enérgico" atrás das grades, mas por vezes estava "preocupado e nervoso" com a sentença, parecendo por vezes desiludido e suspirando durante as visitas à prisão. "Há sempre tantas incógnitas", disse Lee. "Mas ele tem de aceitar esta realidade, em vez de continuar simplesmente abatido ou infeliz por causa dela."4
Steve Tsang, diretor do Instituto China da SOAS Universidade de Londres (SOAS University of London), disse à AFP antes da sentença que "[Pequim] identificou o Joshua como um dos principais líderes do que consideram uma rebelião aberta em 2019 -- apesar de Wong ser um dos moderados -- e ele será usado como exemplo". Acrescentou que a sua condenação visa mostrar que Pequim "mantém rédea curta sobre Hong Kong e não há margem para regressar aos dias mais tranquilos de antes de 2019". Quando Wong saiu, ouviram-se apoiantes a dizer: "Estaremos à tua espera quando saíres."4
Margaret Chan, reformada de 61 anos e apoiante de longa data, disse: "É verdadeiramente de partir o coração. Um jovem tão notável, que tem sido excecional desde a juventude." "Mas ele já estará na meia-idade quando for libertado", disse Chan.4