A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, disse na quinta-feira em Frankfurt que deixará o cargo antecipadamente em 7 de fevereiro de 2027 para ter liberdade de se manifestar sobre temas além da política monetária.1,6
O mandato dela terminaria em outubro de 2027, por isso a saída ocorre nove meses antes e dá aos atuais líderes da União Europeia (European Union) tempo para escolher o sucessor antes da eleição presidencial francesa da próxima primavera, em que as pesquisas apontam a candidata de extrema direita Marine Le Pen como favorita. O anúncio ocorreu enquanto o BCE manteve as taxas de juros inalteradas, preservando expectativas de outro aumento em dezembro, com custos de energia altos e em alta alimentando riscos de inflação e com os títulos franceses no centro das atenções.1,2,6
Questionada sobre por que estava saindo depois de ter dito anteriormente que não poderia sair com nuvens inflacionárias no horizonte, Lagarde afirmou que a neutralidade exigida pelo cargo a impedia de se manifestar sobre questões que afetam a Europa e outros lugares. "Acho que não consigo permanecer neutra", disse Lagarde em entrevista coletiva após a decisão de política monetária do BCE.1
"Acho que não consigo me sentir à vontade nessa neutralidade neste momento. E me interessa a verdade, e vejo a verdade sendo com muita frequência prejudicada, contradita por deturpações", disse ela. Ela não disse sobre quais temas gostaria de se manifestar e não respondeu a perguntas sobre se havia antecipado deliberadamente a saída para permitir que o sucessor fosse escolhido antes da eleição francesa da próxima primavera.1
Lagarde informou os colegas do BCE sobre sua decisão após a conclusão da reunião de política monetária de dois dias. A Reuters informou, citando uma fonte presente, que ela se emocionou várias vezes ao ler a mensagem de renúncia. O BCE disse em comunicado: "A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, informou hoje o Conselho do BCE e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, de que deixará o cargo em 7 de fevereiro de 2027", comunicado que, segundo a DW, trazia a data sem apresentar um motivo.1,6
O presidente francês Emmanuel Macron, que ajudará a escolher o próximo chefe do BCE, agradeceu a Lagarde pelos serviços e pediu uma sucessão coordenada. "A transição na liderança do BCE deve agora ser preparada de forma ordenada e equilibrada, em coordenação com nossos parceiros europeus", disse Macron. O presidente do Conselho Europeu, António Costa (Antonio Costa), disse que o processo para encontrar o sucessor de Lagarde começaria imediatamente.1,6
Representantes do partido Reunião Nacional (National Rally), de Le Pen, criticaram a medida. Jean-Philippe Tanguy, encarregado de elaborar a política econômica para o manifesto eleitoral de Le Pen, disse à Reuters que a medida demonstrava desprezo pelo Estado de direito: "Eu já esperava por isso. Outro insulto na nossa direção – lamentável." Le Pen disse que quer discutir o papel do BCE e que, se eleita, buscaria uma intervenção do banco central para aliviar o peso dos juros da França.1
Markus Ferber, deputado alemão no Parlamento Europeu (European Parliament) pelo Partido Popular Europeu (European People's Party), de centro-direita, que integra a comissão parlamentar que confirmará o sucessor de Lagarde, também disse que a saída antecipada enviava "o sinal errado" diante da inflação alta, dos mercados de títulos nervosos e das eleições iminentes. "Se surgir a impressão de que essa saída foi programada em função de eleições nacionais, isso prejudica a confiança em uma instituição que deve estar acima de qualquer cálculo político interno", disse Ferber.1
A nomeação deve fazer parte de um pacote mais amplo de altos cargos do BCE, envolvendo a vaga no conselho executivo de Isabel Schnabel, que sairá no início de janeiro, e a do economista-chefe Philip Lane, que deve sair em maio. Os ex-governadores dos bancos centrais dos Países Baixos e da Espanha, Klaas Knot e Pablo Hernandez de Cos, são amplamente vistos como favoritos para substituir Lagarde.1
Lagarde, ex-ministra das Finanças da França que dirigiu o Fundo Monetário Internacional (International Monetary Fund) de 2011 a 2019, iniciou seu mandato em 1º de novembro de 2019 como a primeira mulher no cargo e dirigiu o banco por sete anos de um mandato de oito anos. A especulação de que ela sairia antes crescia há meses, incluindo a especulação destacada pela DW de que uma saída antecipada permitiria aos líderes da UE escolher seu sucessor antes das eleições francesas na primavera, em que uma vitória da extrema direita eurocética poderia influenciar a escolha.1,6
Os mercados financeiros mostraram pouca reação, com alguns analistas dizendo que o BCE havia construído uma reputação que sobrevivia a qualquer um de seus líderes. "Os sucessores cotados são ambos banqueiros centrais muito competentes e bem estabelecidos, então para os mercados isso não importará muito", disse o economista do Danske Bank Piet Haines Christiansen. "O BCE agora está bem estabelecido, o mercado está familiarizado com a forma como opera", disse o chefe de Investimento Macro de Renda Fixa do Goldman Sachs, Simon Dangoor. "Nossa visão é que o comportamento institucional provavelmente sobreviverá a Lagarde e será bastante semelhante, seja quem for que assuma."1